De cara o nome já é instigante: Cruel. A nona montagem da Cia. Deborah Colker, que esteve em cartaz este final de semana no Teatro Guararapes lotado, leva ao palco as precisões coreográficas, a força, a ousadia, o virtuosismo dos movimentos, por vezes acrobáticos, presentes em outros espetáculos da companhia dirigida por essa carioca inquieta e determinada. Mas Cruel acrescenta elementos dramatúrgicos, que entram em cena como metáforas. Um jogo precioso em que a coreógrafa faz do público o cúmplice para a múltipla interpretação do espetáculo. Se ela propõe um enigma, ela quer que a platéia o decifre.
Dividido em dois atos, a encenação é vendida como o olhar cruel sobre temáticas como amor e suas nuances, família e um baile onde as pessoas se encontram. Homens lindos e mulheres maravilhosas dançam. Mas o baile pode ser o deserto e isso indica doses de crueldade, mas próxima do cru, sem as máscaras sociais. E isso já faz um link com o segundo ato, com enormes conjuntos de espelhos vazados, e a dança com seus múltiplos reflexos, onde os buracos também podem ser lidos como nossas faltas, ausências, incompletudes; hiatos sem esperaças.
A partir dessas propostas podemos até chegar à conclusão que estamos condenados ao nosso próprio desejo. Devorados por vontades não satisfeitas. Por outros desdobramentos, frestas que se multiplicam. E que o desejo é inclemente mesmo na história ordinária da vida cotidiana. A mulher que não consegue encontrar um par na vida; outro/outra que encontra mas não resiste às tentações do mundo. As relações afetivas e suas razões mais profundas.
Deborah Colker propõe um enigma para o públicoA trilha sonora é intensa, com pulsação contemporânea. Os cenários de Gringo Cardia são um luxo só: Um imenso globo; uma mesa que vira chão de disputas e pequenas tragédias; os espelhos que aproxima ao ato de despir, de encarar a si mesmo sem maquiagem. Tudo exponenciado pelos movimentos dos bailarinos, com muita força muscular, agilidade, peripécias, que inclui com quedas verticais com destreza. Ness segundo ato, os corpos parecem fragmentados ao atravessar as estruturas ou se confundir com corpos de outros bailarinos. Relfexos e luzes diante dessas interseções insistem em lembrar que a solidão existe.
Além das coreografias, a direção musical de Berna Ceppas que faz o namoro do som eletrônico com a música de orquestra, com a MPB, com algum ruído humano. A iluminação, de Jorginho de Carvalho, cria os climas dramáticos. E os belos figurinos de Samuel Cirnansck conseguem traduzir com maestria esse tempo que junta o corte clássico com as ousadias contemporâneas.
Tecnicamente, o espetáculo é ótimo. Nas coreografias coletivas, solos, duos e trios. Mas há algo nesse discurso em que falta a fúria que dilacera coração, que corta simbolicamente a carne e terminações nervosas, como é proposto na cena em que bailarinos se enfrentam jogando as facas na mesa. Talvez algo de uma violência estética que lembre a dor. Mas talvez muito melhor que uma suposta correta interpretação dos signos, é que a beleza seimpõe. E a dança contemporânea de Deborah Colker com sua potência nos faz refletir sobre histórias banais que todos os dias somos protagonistas.