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Pachamama leva adiante bastão de Glauber Rocha
Experimental // Eryk Rocha, filho do diretor de Terra em Transe, registra uma viagem de 14 mil quilômetros pelo Brasil, Peru e Bolívia
André Dib // Enviado especial

Gramado (RS) - Falado em português, espanhol e línguas nativas da civilização inca, Pachamama, de Eryk Rocha, foi exibido pela primeira vez na noite da quarta-feira, dentro da mostra competitiva do 36o Festival de Cinema de Gramado. O filme registra de forma bastante pessoal uma viagem de 14 mil quilômetros pelo Brasil, Peru e Bolívia, feita pelo diretor baiano a convite de uma equipe de pesquisadores. Da selva amazônica ao território da antiga civilização inca, a busca do diretor é entender o que se passa nas nações vizinhas, de forma a buscar referências e refletir o projeto brasileiro de país. Pachamama (mãe terra) é a grande divindade da civilização inca, descrita como a terra num sentido profundo, metafísico. Nesse sentido, o filho dá continuidade à ao trabalho do pai Glauber Rocha, que inaugurou o tema com os filmes Terra em transe (1967), e A idade da terra (1980).


Enquadramentos quase abstratos e movimentos inquietos da câmara revelam a busca por algo novo Foto: Urca Filmes/Divulgação
Logo nos primeiros minutos, enquadramentos quase abstratos fazem o preâmbulo da partida do Rio de Janeiro. Minutos depois, os olhos de um menino índios dão início a uma imersão no novo, inclusive em termos de linguagem. Ao longo da projeção, poucas imagens se fixam na tela. O movimento inquieto da câmera - pela primeira vez empunhada pelo diretor - e os elementos naturais e humanos em constante movimento traduzem sua convicção de que tudo está em mutação. Por isso, Rocha se furta a arriscar explicações sobre a realidade dali. Para ele, se trata de um "cinema epidérmico": não sobre algo, mas através de algo. "O cinema é a dúvida, é a arte do acaso, de estar permanentemente se lançando no abismo. Acreditar no cinema é acreditar no que ainda não foi revelado", justifica o diretor baiano. "Não me interessa fazer um cinema antropológico ou sociológico. Assumi um filme experencial, da minha percepção daquelas realidades".

O percurso revelou momentos e declarações divergentes, onde é evidente o conflito étnico e de classes sociais. Em boa parte daquele povo há a crença de que o componente divino está na terra em que viveram seus ancestrais. Coisa que os brasileiros parecem ter perdido faz tempo, o que levanta suspeitas sobre as razões políticas de nossa convicção de paraíso em outro tempo-espaço (resignação) que não o aqui-agora (revolução). Característica tida como civilizada, na emblemática fala de um rico empresário de Santa Cruz de La Sierra.

Diante das 80 horas de material bruto, um corte de 100 minutos poderia se tornar um pesadelo, não fosse o contrato com o Canal Brasil e a TVE do Paraná, que em breve exibirão a uma série de seis episódios sobre a viagem, intitulada A selva cordilheira. "A série ajudou a entender qual a linguagem do filme. Ela tem o papel de integrar ao componente poético. Isso nos liberou para fazer um filme que assuma esse olhar em movimento".


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Edição de sexta-feira, 15 de agosto de 2008 
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